Meu amigo Adriano B. Maia

Lembro como se fosse ontem. O pequeno garoto de dentes brilhantes e uma voz fina e afeminada aproximou-se de mim e disse: "você tem pêlo no cú?". Aquela frase soou como algo traumatizante para mim, um pobre menino inocente que nunca entrara em contato com esse tipo de palavreado e também esse tipo de pessoa. Eu estava na calçada frente ao Colégio Santo Inácio em pé na espera que minha mãe chegasse para buscar-me. Tenho em minha mente a data do ocorrido: coincidentemente 24 de março de 1999. O horário não me recordo, mas aconteceu após o termino da aula. Ao chegar ao ponto de encontro marcado com minha mãe para me buscar, rapidamente olhei para o lado e reparei que um rapazinho vinha de encontro a mim. Nunca o havia visto em minha vida. Com um andar desinibido, bochechas rosadas, sorriso maroto e seios finos e pontudos na cor marrom cocô (ele tem esses seios até hoje) Adriano B. Maia, desconhecido por mim até aquele momento, se aproximou e curvou seu pescoço para frente. Minha primeira impressão foi que: ou ele iria me beijar ou me dar uma cabeçada. Assustado, senti sua voz feminina penetrar em meus ouvidos, dizendo aquela inesquecível frase. Olhei para o lado e o empurrei respondendo de forma ríspida: "mas credo! suma daqui!". Corri e fui para o banheiro. Após sete minutos, sai de fininho, na esperança de não ter que encontrar novamente com aquele cidadão. Felizmente ele já não estava por lá. Então voltei ao local e fui embora.

No dia seguinte, tudo ocorreu como esperado. Mas no final da aula, lá estava ele novamente. Dessa vez, o jovem de beiços rosados chegou de forma mais sútil, perguntando meu nome. Desconfiado, respondi e resolvi não tocar no assunto de ontem, mas rapidamente, o menininho de nariz de batata, colocou suas mãos entre sua nádega direita e esquerda, muito abaixo da cintura e disse: "que coçeira que estou aqui atrás". Enojado, fingi que não ouvi e torci para que minha mãe chegasse logo, algo que infelizmente demorou a acontecer. Foi então que eu disse: "vou ao banheiro". Me escondi por lá durante nove minutos. Quando saí, minha mãe já me aguardava no local esperado e saí correndo para dentro do carro. Não olhei para os lados naquele dia, mas provavelmente, Adriano já havia partido.

Passaram-se nove dias desde a última vez que fui obrigado a conversar com o estranho menino. Era recreio. Eu estava na fila do lanche, esperando ser atendido para saborear meu delicioso cachorrão com molho de tomate, quando alguém me toca o ombro. Desconfiado que seja novamente aquele menino, rapidamente olhei para o lado e para minha decepção era ele mesmo. Era inevitável não reparar que seu nariz estava completamente melecado. A cada respiração, uma meleca de nariz se movia de acordo com o movimento de seus pulmões, entrando e saindo de forma repetitiva. Decidi ficar calado na esperança de não ser reconhecido, mas o jovem decidiu abrir a boca: "me espera no final da aula que eu quero te mostrar uma coisa". Não respondi. Depois disso, ele desapareceu. Chegando o final da aula, pensei se deveria me encontrar com ele ou me esconder no banheiro. Ao soar a música "Joque lixo no lixo, não jogue nada no chão. Vamos deixar essa escola, limpinha com esta canção" como sinal de partida, fui ao seu encontro de forma vagarosa. E lá estava ele. Logo reparei que havia um estranho objeto, de forma retangular e cor azul transparente em suas mãos. Dessa vez, seu nariz estava limpo, mas ele não parava de se cutucar. Então ele entregou o curioso objeto em minhas mãos e ao observá-lo, notei que havia algo escrito na capa azul transparente. Fixei meus olhos nas letras míudas e finalmente consegui ler. Não havia como não ficar surpreso. O que estava escrito era: "baralho pornô gay". Embora eu ainda não soubesse o que significava a palavra "pornô" e "gay", joguei o baralho no chão e sai correndo de encontro ao banheiro. Após dois minutos saí e fui direto ao garotinho e disse: "vira homem e nunca mais fala comigo". Cabisbaixo, Adriano apenas respondeu: "tá".

Fiquei muito tempo sem trocar se quer uma palavra com ele. Mas tudo mudou quando ouvi um boato de que Adriano Maia iria torcer para o Corinthians e que estava conhecendo um são-paulino chamado "Ênio Leonardo". Na saída do colégio, dei-lhe um tapa na cabeça, o levantei pelo colarinho e gritei: "Eu não falei para você virar homem?!". Depois disso fui ao banheiro lavar o rosto e refletir. Foi justamete nessa hora que pensei: "preciso ajudá-lo a virar homem!". Duas semanas depois, eu estava em frente a Igreja em frente ao colégio quando olho para um canto escuro e me deparo com Adriano Maia e Ênio Leonardo de mãos dadas. Minha primeira reação (logicamente) foi separá-los imediatamente. Utilizei minha mão direita como uma tesoura e cortei a ligação física de ambos. O jovem de bochechas rosadas ficou boquiaberto, enquanto a rapariga com uma pinta peluda no lado esquerdo do rosto gritou: "aiiiiiiiiiiii". Nervoso, apenas gritei: "suma daqui sua bicha" e logo em seguida: "você Adriano Maia, vai virar homem e torce para um time de verdade!".

Desde então, Adriano começou a torcer para um time campeão e inclusive, a gostar de mulheres. Pelo menos aparentemente. Namorou, quase casou. Se separou e agora está na luta para encontrar a parceira ideal. O que tenho a dizer depois disso tudo? Apenas que fiquei orgulhoso, pois fico pensando em que rumo esse rapaz poderia estar seguindo agora se eu não tivesse intervido. Seu pai poderia estar decepcionado tendo que aturar Ênio Leonardo em sua casa todos os dias ou até pousando lá nos finais de semana. Por enquanto, meu amigo Adriano B. Maia é apenas um aspirante à homem, mas com um pouquinho de trabalho, ele se tornará digno de ser respeitado como o sexo forte.

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